
Curioso por Ciência #99: Obesidade pode intensificar inflamação na bexiga e favorecer alterações associadas ao câncer
Curioso por Ciência - USP
A obesidade já é reconhecida como fator de risco para doenças cardiovasculares e diabetes, e também como condição capaz de provocar inflamação crônica e silenciosa no organismo. Esse processo inflamatório persistente, mesmo na ausência de infecção, pode gerar danos progressivos aos tecidos e contribuir para o surgimento de diferentes patologias.
O Curioso por Ciência desta semana apresenta os resultados de uma pesquisa de doutorado desenvolvida na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP que, a partir dessa premissa, investigou se a obesidade pode intensificar inflamações na bexiga e favorecer alterações associadas ao câncer. O estudo analisou de que forma o ambiente metabólico característico do excesso de gordura corporal interfere na resposta inflamatória do órgão.
Para testar a hipótese, os pesquisadores utilizaram um modelo experimental com camundongos. Os animais foram divididos em dois grupos: um recebeu alimentação padrão e o outro passou por dieta rica em gordura por algumas semanas, estratégia capaz de reproduzir características metabólicas semelhantes à obesidade.
Após essa etapa, todos os animais foram expostos a uma substância capaz de induzir inflamação na bexiga, simulando processos iniciais observados em condições relacionadas ao câncer. A comparação entre os grupos permitiu avaliar a influência da obesidade sobre a intensidade e a persistência da resposta inflamatória.
Os resultados revelaram diferenças significativas. Nos animais alimentados com dieta convencional, as alterações inflamatórias foram discretas e limitadas. Já no grupo submetido à dieta rica em gordura, observou-se inflamação intensa e persistente, aumento da proliferação celular e presença de alterações consideradas pré-cancerígenas.
A análise molecular indicou ainda maior ativação de vias inflamatórias nos animais obesos, sugerindo que o excesso de gordura corporal cria um ambiente biológico propício ao desenvolvimento de lesões que podem evoluir para câncer de bexiga.
Embora os dados tenham sido obtidos em modelo experimental, os achados reforçam a hipótese de que a obesidade atua como fator modificador da resposta inflamatória, ampliando riscos associados à carcinogênese. Os pesquisadores destacam a necessidade de estudos clínicos em humanos para confirmar a relevância desses mecanismos no contexto populacional.
A pesquisa integra a tese de doutorado A influência da obesidade na inflamação e no câncer de bexiga: modelo experimental de cistite em ratos, desenvolvida por Cristiano Trindade de Andrade no Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica da FMRP e concluída em 2024, sob orientação do professor Rodolfo Borges dos Reis.